Opinião PDF Imprimir E-mail

Em matéria de juros, Brasil está na contramão do mundo

Análise é do colunista da Folha, Benjamin Steinbrunch

 

da Folha - junho/2014

 


Em plena Copa do Mundo, é impossível deixar de acompanhar os problemas da economia. É mais do que preocupante o atual cenário da indústria brasileira. Um pouco antes do início do Mundial, ficamos sabendo, pelo IBGE, que a produção industrial teve uma nova queda em abril, de 0,3% em relação ao mês anterior. Na comparação com maio do ano passado, a queda é de 5,8%.

 

A preocupação com a indústria aumenta porque seu ambiente recessivo se espalha praticamente por todas as regiões e todos os setores.

 

No ainda importante setor de veículos, os números de maio mostraram uma queda de produção de 18% na comparação com o mesmo mês do ano passado. As empresas tiveram de ajustar sua produção à demanda diminuindo o ritmo de trabalho, parando linhas de montagem e, infelizmente, demitindo empregados.

 

Quase 5.000 vagas foram fechadas desde o início do ano nas montadoras, que também apresentam queda anual de 24% no faturamento de exportações. Na indústria como um todo, na comparação com o mesmo mês do ano passado, houve em abril uma queda de 2,2%, a 31ª seguida.

 

Por que tudo isso está acontecendo? Há um discurso, largamente difundido, sobre a falta de confiança do setor empresarial, que se sente inseguro, por muitas razões, para fazer investimentos produtivos. Tudo isso é verdade. Mas há também um fato incontestável, que colabora de forma definitiva para colocar a indústria e toda a economia brasileira no rumo da recessão.

 

É óbvio que estou falando da falta de crédito e dos juros. Não dá para explicar a ninguém por que, num momento em que tanto os países emergentes quanto os desenvolvidos estão cortando ferozmente os juros, aqui no Brasil continuamos com uma taxa de 11% ao ano. É a maior taxa do mundo, tanto em termos nominais como reais. Todo o mundo desenvolvido opera com taxas reais negativas (abaixo de zero) e alguns emergentes também, como a Índia.

 

Há duas semanas, o Banco Central Europeu adotou até uma taxa nominal negativa, de 0,10%, para depósitos dos bancos privados. Isso significa que os bancos europeus, para deixarem seu dinheiro depositado com segurança no BCE, precisam pagar 0,10% do valor depositado por ano. Enquanto isso, aqui no Brasil, quem comprar títulos do Tesouro, aplicação de risco zero, ganhará 11% ao ano, algo como 4,5% em termos reais (acima da inflação).

 

Na contramão do mundo, o Brasil vem aumentando a taxa básica de juros desde abril do ano passado. Nesse período, a nossa conhecida Selic passou de 7,25% para 11%, nível atual. O objetivo, nobre, era conter a inflação, que se aproximava e ainda se aproxima perigosamente do teto da meta, de 6,5% ao ano.

 

Para nossa decepção, o efeito esperado dessa política praticamente não se deu. Enquanto isso, o efeito colateral se apresenta em cheio, colaborando para esfriar a economia e colocá-la no caminho da recessão, como mostram dados citados acima.

 

A esta altura, nem os analistas mais otimistas preveem um crescimento do PIB de 2% no ano, o que já seria um retrocesso em relação ao fraco desempenho de 2013 (2,3%).

 

O que fazer? Ora, é elementar: baixar os juros. Se a política de arrocho não está fazendo efeito para segurar a inflação, até porque grande parte dessa inflação decorre de fatores incontroláveis via aperto monetário, então ela é indesejada, já que tem efeito colateral devastador.

 

As altas taxas de juros têm forte impacto nos custos empresariais, já agravados por energia, câmbio, falta de crédito e outros fatores. Levantamento da CNI mostrou que os custos do capital de giro da indústria aumentaram incríveis 33% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período de 2013. Além disso, o rendimento financeiro real, acima da inflação, obviamente desestimula os investimentos produtivos.

 

É necessário ter coragem para afrouxar agora a política monetária, numa conjuntura de disputa eleitoral e contra a vontade do mercado financeiro.

 

Qualquer redução da Selic antes da eleição será certamente taxada de medida eleitoreira e, mais ainda, interpretada como atitude de leniência com a inflação.

 

De qualquer forma, ganhe quem ganhar a eleição presidencial, precisará adotar uma política monetária mais frouxa. Se não fizer isso, na certa enfrentará uma recessão logo no primeiro ano de governo, para decepção de seus eleitores.

 
 

Pesquisa no site

Últimas Notícias

Anterior Próximo
Negócios

Negócios

Vale Cultura movimenta R$ 13,7 milhões em vendas e consumo maior é em livrarias Balanço foi divulgado pelo Ministério da Cultura;...

Redação Comentários 11 Jul 2014

Leia mais
Tecnologia

Tecnologia

Loja física testa pagamento móvel para evitar filas‏ Por meio de um aplicativo, o cliente faz o pagamento pelo celular; tendência...

Redação Comentários 11 Jul 2014

Leia mais
Lojista

Lojista

Marca americana escolhe Curitiba como cidade teste para a entrada no Brasil Inch of Gold tem dois quiosques no Palladium...

Denise Mello Comentários 11 Jul 2014

Leia mais
Marketing

Marketing

Marketing “certeiro” do varejo usa até TV quebrada na Copa para faturar Até prejuízo com goleada da Alemanha vira “lucro”; especialista...

Denise Mello Comentários 11 Jul 2014

Leia mais
Vendas

Vendas

Copa "afunda" comércio de Curitiba e junho registra queda de 14% nas vendas Lojistas e economistas explicam o que aconteceu...

Denise Mello Comentários 11 Jul 2014

Leia mais

Evento

Exposição Brasil - Espanha: Unidos pela mesma paixão Depoimentos de craques do Brasil que brilham na Espanha fazem parte do evento ...

Redação Comentários 02 Jul 2014

Leia mais

Opinião

“Refis da Copa” Dilma alterou novamente os prazos para parcelamento dos débitos federais  

Redação Comentários 02 Jul 2014

Leia mais
Projeto de lei

Projeto de lei

Projeto na Câmara Federal quer acabar com feriado da proclamação da República Para deputado autor da proposta, o 15 de novembro...

Redação Comentários 02 Jul 2014

Leia mais
Negócios

Negócios

Salas de cinema avançam para o interior para ampliar público Redes pegam carona na expansão dos shoppings em cidades de pequeno...

Redação Comentários 02 Jul 2014

Leia mais
Trabalhadores

Trabalhadores

Vereador pede ampliação de estação-tubo em frente ao ParkShoppingBarigui Sindicato dos Trabalhadores coloca que embarque não dá conta dos 2...

Denise Mello Comentários 02 Jul 2014

Leia mais
Paraná

Paraná

Obras do Shopping Catuaí de Foz devem começar em julho Saiba como está a negociação para os Shoppings Atuba e Jockey...

Denise Mello Comentários 01 Jul 2014

Leia mais
Marketing

Marketing

Pista de gelo do ParkShoppingBarigui chega ao 10º ano com mérito de ter ensinado curitibano a patinar Gerente de marketing fala...

Denise Mello Comentários 01 Jul 2014

Leia mais

Opinião

Em matéria de juros, Brasil está na contramão do mundo Análise é do colunista da Folha, Benjamin Steinbrunch  

Denise Mello Comentários 20 Jun 2014

Leia mais
Tendência

Tendência

"Boom" de shoppings deve reduzir pressão sobre aluguel Grande oferta de shoppings reflete um momento do passado recente, quando o comércio...

Redação Comentários 20 Jun 2014

Leia mais

Economia

Vendas do comércio crescem 2% em maio em Curitiba Índice subiu em relação ao mês de abril, mas teve crescimento negativo...

Redação Comentários 20 Jun 2014

Leia mais
Tendência

Tendência

"Boom" de shoppings deve reduzir pressão sobre aluguel Grande oferta de shoppings reflete um momento do passado recente, quando o comércio...

Redação Comentários 20 Jun 2014

Leia mais