HOME SHOPPINGS ACT CCT TABELAS SINDICAIS CONTATO
CONTRIBUIÇÕES Contribuição
Sindical
Contribuição
Confederativa
Contribuição
Assistencial
Solicitação
de Boleto

Economia

A alma do negócio

Acabou a era de abrir as portas da loja, dar bom dia e passar anos no mesmo ponto fazendo clientela



Acabou a era de abrir as portas da loja, dar bom dia e passar anos no mesmo ponto fazendo clientela. O freguês agora quer viver ‘a experiência’

RIO — Descansa em paz, Marie Papier, porque chegou a hora de ir até o quadro de luz no fundo da loja, desligar em definitivo o letreiro com o teu nome e na saída, como se fosse o bilhete do suicida, pregar nos olhos dos pedestres o aviso fúnebre de passa-se o ponto, obrigado e adeus. Chegou a hora de pegar a caneta Lammy que restou no estoque, caprichar na caligrafia sobre o Moleskine e, 40 anos depois, fechar as portas. Não é você, não é só a crise. O comércio de varejo quer discutir a relação, conhecer um novo jeito de fazer freguesia. É preciso saudar também a Casa Cruz e outras papelarias que se foram. Ninguém tem culpa, nada a ver com má administração. É uma civilização de balcões e caixeiros que aos poucos se vai, ultrapassada por uma experiência digital que promete outro estilo de vendas — e zero de afetividade na relação.
Descansa em paz, Nuance Tecidos, porque já está em teu lugar um restaurante modernoso e foi preciso se despedir do meio século em que as noivas do Leblon e suas convidadas da Zona Sul iam até a Ataulfo de Paiva comprar as mais finas organzas, as mais graciosas musselinas, para fazer bonito na festa. Que vá também na santa paz dos negócios celestiais os manequins elegantes postos ainda semana passada na vitrine da Alberto Gentleman, de Ipanema, e agora, todos mortos, vão ser substituídos por alguma loja de sandálias.
Eram negócios que duravam décadas, marcavam a vida de quem estava de um lado ou do outro do balcão — e é uma pena que uma cultura assim se vá sem a constatação de que não está ocorrendo apenas um falecimento geral de lucros. Uma loja não é só uma loja, alguém perguntando se põe CPF na nota. Só alguém embrutecido pela luta cotidiana, e a necessidade de evitar ser a próxima vítima, não se emociona com o féretro da multidão de 9 mil almas comerciais encerradas em 2017 no Rio. O desfile de coches fúnebres nesses primeiros meses de 2018 continua interminável — e lá se foram a Accessorize, a Cartier e a Dimpus, todas em Ipanema.
É um pedaço da cidade que parte e são sinceros os votos de paz eterna para a Guitarra de Prata, a Mala Ingleza e mais de três dezenas de letreiros que, embaixo do monumental arco de oitis da Rua da Carioca, venderam violões para o Rei da Voz Francisco Alves, malas para férias em Poços de Caldas e mais uma lista enorme de memórias, sentimentos e emoções fundamentais para ajudar a explicar a história de um povo. Em alguns casos o vilão foi o aluguel, em outros o perigo de sair à rua — mas nada é só aquilo que se vê. Acabou a era de abrir as portas da loja, dar bom dia e passar anos no mesmo ponto fazendo clientela, perguntando o que o senhor deseja. O freguês agora, dizem os novos reis da cocada nude, quer viver “a experiência”. A loja física será um detalhe da operação digital e só um empreendedor equivocado se fixará por muito tempo no mesmo endereço. O Rio será uma cidade cercada de koniterias, iogurterias, drogarias, hamburguerias e todas as demais porcarias que entram e saem da moda comercial.
Descansa em paz, Leão dos Plásticos, porque só seus funcionários sabem como foi duro passar 90 anos forrando de espuma a vida estressante de Copacabana. Que a sua chegada ao reino onde já estão há tanto tempo a Casa Tavares, a Polar, a Impecável Maré Mansa, vítimas de outras assombrações do mercado brasileiro, tenha sido amaciada pelo pisar num lindo linóleo de florões vermelhos saído de suas prateleiras. Eram lojas íntimas, passavam por gerações da família, e agora só resta desejar a Raquel Presentes, a Roberto Simões Presentes, todas de fino luxo e recém passadas para outra dimensão, que se juntem serenas às lembranças que todos têm do Leão da Rua Larga, da Barbosa Freitas, da Pince-Nez de Ouro e da Príncipe, que “veste hoje o homem de amanhã”.
O amanhã chegou e a falência contábil dessas lojas onde se conhecia o dono coincide com a perda de outras referências da delicadeza carioca, como a generosidade no trato, a malandragem ingênua e o convívio pacífico no espaço público. Os robôs avançam. A tendência, dizem os sabichões do varejo, é o freguês ficar em casa. Ele vai usar óculos de realidade virtual para se ver dentro de roupas e comprar na internet. Um futuro que chegou aos poucos, e primeiro levou a geração da Silhueta Infantil, depois naufragou a Bemoreira-Ducal, atingiu o “ninguém segura o" Kalil M Gebara, e agora faz um strike macabro sepultando o sebo Al-Farabi, a Cirandinha, a Andarella e mais 40 lojas todo dia. Que se respeite o silêncio de suas caixas registradoras.
Sai o Gabriel Habib da esquina e entra, de uma nuvem sabe-se lá onde, o Jeff Bezos, o dono da Amazon, a central primeira da nova ordem mundial. Há os que falam de sua eficiência, assim como, os detratores, de seus atrasos. Quem frequentava a Petit Ballet, em Copacabana, ou a Bom Desenho, na pracinha do Jardim Botânico, sabe que a questão é outra. Não importa a exatidão dos algoritmos que movem os serviços desses balcões digitais. A Amazon não descansa o lápis na orelha. A Amazon não decora a loja com a sabedoria de que “fiado só amanhã”. A Amazon não diz “faz favoire”. A Amazon não tem alma.
fonte:Joaquim Ferreira dos Santos - 29/04/18 – O Globo 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

SHOPPING MUELLER CONQUISTA DOIS TROFÉUS NO PRÊMIO ABRASCE 2018

Leia +

Alvaro Dias pede a empresários lucidez.

Leia +

Esse evento é para todos os piás e gurias que adoram futebol.

Leia +

Varejo paranaense vende 5,13% a mais no primeiro semestre

Leia +

Ações do Magazine Luiza disparam após melhor resultado dos últimos 5 anos

Leia +

Brasileiros esperam pelo avanço do trabalho remoto

Leia +

Empresários cobram de Temer medidas para setor Empresarial

Leia +

Cota de vagas para presidiários é impraticável, dizem associações

Leia +
ARQUIVO    Clique para ver todas as notícias

CADASTRO

Cadastre-se e receba notícias
do Sindishopping


NOME
EMAIL
TELEFONE